Opinião

O futuro marítimo do Faial não pode esperar

Falar em 10 a 15 anos para concluir o reordenamento do Porto da Horta obriga-nos a olhar para trás e a perceber como chegámos a este ponto.

Segundo a Presidente da Portos dos Açores, entre 2021 e 2026 foi desenvolvida pelo Governo Regional apenas uma “lista de intenções”. Agora, será lançado um concurso para a elaboração do projeto de reordenamento e o estudo do LNEC sobre as intervenções no espelho de água deverá ser apresentado no primeiro trimestre de 2027.

Seis anos depois, estamos ainda a preparar o projeto. E, ao mesmo tempo, fala-se num horizonte de 10 a 15 anos para concluir o reordenamento. A Câmara do Comércio e Indústria da Horta já veio dizer que 15 anos é demasiado tempo.

Não será? O Porto da Horta não é uma infraestrutura qualquer. Está no centro da história, da identidade e da economia do Faial. A relação da ilha com o mar não é uma imagem construída para promover o turismo. É uma realidade económica e social com séculos de história.

Por isso, o problema não é apenas saber quanto tempo demora uma grande obra. É saber se existe uma visão clara, assumida e calendarizada para o Porto da Horta.

Se o futuro reordenamento ainda vai ser objeto de projeto, qual é exatamente o modelo de porto que está definido? E se as primeiras intervenções passam pela modernização das redes técnicas, como se garante que aquilo que estamos a construir hoje está plenamente articulado com o porto que queremos ter amanhã?

Esta discussão torna-se ainda mais difícil de compreender quando, ao mesmo tempo, a Ordem dos Engenheiros defende a elevação de Ponta Delgada a capital marítima de Portugal. Para o Faial, aceitar sem reação uma afirmação desta natureza significaria ignorar séculos de história e uma ligação ao Atlântico que faz parte da própria identidade da ilha. Sobretudo quando, enquanto se projetam para outros territórios ambições marítimas desta dimensão, ao Porto da Horta é apontado um horizonte de 10 a 15 anos para concretizar o seu reordenamento. Afinal, que lugar está reservado ao Faial numa estratégia marítima verdadeiramente regional?

Não está em causa retirar importância a nenhuma infraestrutura dos Açores.

Está em causa saber se o Faial está a ser tratado como uma ilha com um passado marítimo que devemos preservar ou como uma ilha com um futuro marítimo que devemos construir.

Porque o Porto da Horta pode e deve ser muito mais do que uma infraestrutura de apoio. Pode servir a pesca, a náutica, a reparação e manutenção naval, a logística, o turismo marítimo e novas atividades ligadas à economia do mar. Para isso, precisa de condições, investimento e, sobretudo, de uma visão.

Não basta dizer que o mar é estratégico. É preciso criar condições para que essa estratégia produza investimento, emprego e oportunidades.

O Faial já esperou demasiado. Depois de seis anos de intenções, anunciar agora mais 10 ou 15 anos para concretizar o reordenamento do Porto da Horta é um horizonte difícil de aceitar. O que se exige é uma visão clara, um calendário credível e a determinação necessária para transformar projetos em obra. Porque o futuro marítimo do Faial não pode continuar adiado.